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NOVO ENDEREÇO Este blog mudou para http://revistaalfa.abril.com.br/blogs/mulher-honesta/ Escrito por Ailin Aleixo às 20h45 [ ] [envie esta mensagem ] | |
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O vulto constante
Tempos de definição são difíceis. Duros. Exigem de nós energia que por vezes não temos—não é todo dia que queremos lutar contra sentimentos díspares, complicados, que desejamos nos perguntar se realmente o amor acabou, se o que sobrou foi só carinho e preocupação, ou se ainda existe um resquício mínimo que guarda em si a possibilidade do renascimento. Não é todo dia que temos fôlego para questionar o que fizemos de nossa vida até aqui e qual o rumo que realmente queremos dar a ela. Cansa. Exaure. Tudo muda quando se passa por uma cisão que altera a maneira de ver o mundo: lá se vai a crença de um amor que resiste a tudo e fica um gosto estranho de fracasso, como se as emoções, e as pessoas, pudessem ser avaliadas em termos tão maniqueístas... Separar-se de alguém que se amou demais é, antes de mais nada, triste. Mas tristezas, por mais fundas que sejam, passam. Desde que não as alimentemos. E a forma mais comum de alimentá-las é insistir em um contato nocivo por nos trazer alento, um tanto duvidoso, mas um alento: a voz conhecida, as palavras um dia tão queridas, o choro que sabemos como estancar, a risada que nos lembra dias mais ensolarados (você já reparou como nos sentimos mais acolhidos com a segurança do passado conhecido, com todos os seus problemas, do que com o vislumbre do futuro?). Alimentá-la é achar que isso pode, em algum nível, fazer bem para algum dos dois. É como manter vivo um paciente com falência cerebral na esperança de que um milagre o faça acordar sorrindo, inteiro. Dói todos os dias em que isso não acontece. E dói mais ainda quando, finalmente, ele morre— mas, então, pelo menos, todos estão livres para seguir a vida. A verdade é que enquanto não decidimos se acabou ou não, se queremos aquela relação de volta (com todas as idiossincrasias, neuroses e desgastes que nos fizeram partir) ou se ela faz parte do panteão do passado, nada anda. Ninguém novo pode entrar, arejar os dias. Nem sozinho ficamos bem. Só a vulto constante da tristeza nos acompanha, mesmo nas horas mais alegres—ela sabe que, a qualquer momento, a guarda baixará e ela terá espaço suficiente pra se instalar. Escrito por Ailin Aleixo às 16h34 [ ] [envie esta mensagem ] | |
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Beijo
Sem ele não há céu. Não importa quanto se insista baseado na racionalização—sem ele, só restam justificativas. Sem ele, o que poderia ser bom torna-se azedo. Nada resiste. Duas pessoas são capazes de passar por muito juntas: brigas, mortes, decepções, falta ou excesso de dinheiro, mas sem o beijo o que era um casal torna-se dois seres. Que podem, porventura, viver juntos e dizer que se amam, mas não tocam seus lábios, o que dirá de suas almas. Escrito por Ailin Aleixo às 12h26 [ ] [envie esta mensagem ] | |
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Promessa Depois de tanto tempo deixar esse blog largado, prometo que o tratarei melhor. E também tratarei melhor as centenas de pessoas que me escrevem em busca de uma crônica nova. beijos, Ailin Escrito por Ailin Aleixo às 12h58 [ ] [envie esta mensagem ] | |
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O canto pacífico A parte do corpo masculino que mais me agrada anda meio desprezada. É um canto ao qual só quem ama tem acesso e apenas quem não tem medo de sua própria vulnerabilidade usa. Visível para qualquer um, mas que quase ninguém nota. Sexo não é a entrega máxima entre duas pessoas - se fosse, prostituição seria amor. Intimidade não são dois corpos nus e cansados depois do sexo, não é compartir dívidas ou nomes na conta-corrente. Tampouco usar a mesma escova de dentes. Não é traçar planos a longo prazo porque eles, a qualquer momento, podem ser levados embora como árvores num vendaval (tão fortes na teoria, tão frágeis na prática); não é saber de cor as respostas do outro, deixar de usar pimentão porque ele não gosta, jamais tocar aquela música que traz más lembranças. Isso é vida a dois, que pode (infelizmente) ser vivida por semidesconhecidos. A maior intimidade que um casal pode conquistar não requer nudez, gemidos ou penumbra. Ela fica disponível, esperando ser requisitada, exatamente no lugar que mais me atrai na solidez corpórea de um homem. Não me apaixonei muito na vida apesar de as possibilidades de paixão terem sido fartas. Mas foi só depois de terminados o ardor e o desespero que sempre vêm atrelados a esse sentimento difícil que compreendi o porquê de ter me perdido em outra pessoa em tão poucas ocasiões: só eles, esses poucos amores, me deram o que sempre precisei, perceberam que minha maior necessidade não tem vínculo algum com brilhantes elucubrações ou demonstrações de saber. Só eles notaram ser essencial deixar essa pequena área sempre à disposição - quando os momentos difíceis me alcançavam (ou os muito bons), era sempre no resguardo desse canto que eu repousava minha aparente força, chorava de alegria, abandonava os medos. A maior entrega se faz quando me aninho mansamente no espaço macio entre o pescoço e o peito dele e apenas fico, sem necessidade de palavras. Intimidade é o momento no qual silencio a mente (e o mundo) e repouso a cabeça na parte mais fascinante e suave do corpo masculino: o ombro do homem que amo. Escrito por Ailin Aleixo às 12h54 [ ] [envie esta mensagem ] | |
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Grisalhos e carecas Não acredito em cantadas. Acho um horror assobios tarados ou frases feitas - coisas típicas de homens desprovidos de massa encefálica ou que pensam alto com o penencéfalo. Por isso sempre gostei de homens mais velhos. Eles, pelo menos, disfarçam melhor. (E isso já é um avanço incrível.) É inevitável me sentir constrangida diante da inaptidão dos novinhos. O pior não são os tímidos confessos ou os atrapalhados evidentes que não sabem onde colocar as sílabas e muito menos as mãos (esses merecem as benesses do olhar bondoso por terem verdadeiramente tentado o seu melhor); os que mais me incomodam são os que pensam dominar arte e técnicas de deixar mulheres trôpegas de desejo, mas tudo o que conseguem são interlocutoras abismadas diante de tanta tagarelice inútil. Confesso que sofro de uma incorrigível patologia, a TPT: timidez por terceiros. Morro de vergonha pelo papelão dos outros. Por isso prefiro os coroas. Mas, acima de tudo, gosto de homens mais velhos por saberem usar a língua. Eles sacaram que ela é a responsável por elogios derretedores de gelo, conversas inesquecíveis, frases memoráveis e por transformar noites tediosas em momentos cheios de lembranças gemidas e úmidas. Escrito por Ailin Aleixo às 12h51 [ ] [envie esta mensagem ] | |
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O que é amar alguém? Jamais soube, verdadeiramente, o que significava amar. Não o amor oferecido amigos, família—esse é fácil de distinguir, seja pela força do sangue ou pelo poder agregador da história em comum. Nunca consegui identificar os indícios da existência do amor quando o envolvido era aquele que entrava na minha vida e permanecia, mudando tantas coisas, acertando outras tão desarrumadas há tempos, adicionando complicações e prazeres. A incerteza estava sempre lá, questionando se aquilo era amor ou apenas uma sensação prolongada de satisfação que, fatalmente, acabaria. E, se acabasse, teria sido amor? Em algum canto de mim morava a certeza tolamente romântica de que, quando se tornase realidade, ele curaria minha ansiedade inerente e instalaria a tranquilidade tão desejada, necessária. Mas isso não aconteceu. Nunca uma pessoa apaziguou meu tumulto. Então teria sido amor? Os fatos-- tão repletos de ausência de sentido em tantos momentos-- que me deixam incrédula, rancorosa, triste, seriam apenas pequenos contratempos sem importância comparados ao brilho e a dimensão que a entrada do amor daria a minha vida. Alguns homens passaram por mim, mas a ocasional frustração e raiva causadas por palavras ferinas e atos escusos – e a inevitável decepção atrelada a eles-- nunca deixou de me assolar. Se a presença de nenhum deles tornou insignificante minha angústia, teria sido amor? Jamais desejei, com urgência e paixão uterinas, ter filhos com um homem nem sonhei com uma grande mesa repleta de netos, noras e genros. Também não me imaginei, idosa, ao lado dele a passear pela rua. E me senti uma sub-espécie de mulher, isolada do resto da humanidade portadora de belos desejos a longo prazo: se nunca vislumbrei esse futuro conjunto, teria sido amor? Demorei para aprender, mas hoje compreendo o significado de amar. O meu significado. Amar alguém é curtir o correr dos dias ao lado dele, tirando, a cada oportunidade, o peso devastador das expectativas, porque é da leveza que nasce a harmonia. É sentir (e não saber—o que faz toda a diferença) que ele precisará da minha ajuda tanto quanto eu de um ombro para descansar; que o fim não mede a beleza de uma relação, assim como a morte não anula quem fomos; que nada, nem ninguém, arrancará de mim as sensações que me fazem ser quem sou (e que precisarei, sozinha, não destruí-las, mas lidar com elas); entender que a obrigação de me salvar é absolutamente minha. Amar alguém é ter a liberdade de ser. Escrito por Ailin Aleixo às 19h02 [ ] [envie esta mensagem ] |