Em São Paulo, quem fica parado é poste

Não concordo com esse papo de que São Paulo é insuportável e neurotizante. Tá, se você tem que acordar às sete da matina pra chegar no escritório às nove (e ficar encalacrado no trânsito nesse meio tempo), pode discordar de mim até com certa autoridade. Mas tirando o mar sobre quatro rodas, São Paulo é o máximo.

Pense bem: que desejo não pode ser saciado nessa cidade? Querendo einsbein, esfiha de zaatar, penne com trufa branca, sushi de polvo, frozen com calda de amora, é só deixar o carro com o manobrista e se acabar de comer. O júnior tá com pouca fralda? Em cada quarteirão tem uma farmácia onde dá pra comprar também tudo o que você não precisa: batom, barra de cereais, creme pra celulite e termômetro com a cara do Piu-Piu. Perdeu a chave de casa, o pneu furou, deu vontade de correr na esteira ou confessar seus pecados às duas da manhã? Tá bom, tá bom. A lista telefônica pode acabar com seu desespero em alguns minutos. A madrugada paulistana taí pra encarar qualquer vontade estapafúrdia, seja de grávida ou a sua. Nem insônia é problema insolúvel: tem a banca Cidade Jardim, por exemplo, que funciona 24 horas, inclusive aquelas em que você rola na cama feito salsicha na água fervente. É só ir lá, pegar um livro na estante, tomar um café (já que você não vai conseguir dormir mesmo...) e esperar bater a vontade de beijar o travesseiro.

Daí vem o final de semana. Sabadão de sol: Vila Lobos, Ibirapuera, Parque da Aclimação, Benedito Calixto. Sabadão de chuva: shoppings, vídeos locadoras, cinemas, boliches, compras de produtos orientais na. E no domingo? Feiras de animais e artesanato, longos brunchs, shows, teatro, pasta no Bexiga, badalação no Itaim, uma voltinha pelas cidades ao redor (mexa-se com os esportes radicais de Brotas, faça seu jardim em Holambra, assista um rodeio em Jaguariúna, brinque no carnaval de rua de São Luis do Paraitinga, descanse em algum hotel-fazenda, reserve uma pousada romântica na praia). Não gostou de nenhuma opção? Então fisgue uns peixes nos pesqueiros, passe a tarde tomando chope na calçada de algum boteco chique, passeie pelas prateleiras tentadoras e cheias de cultura da Fnac. Se quiser ficar em casa sem fazer nada, tudo bem, também. Só não fale, depois, que a tv aberta está um lixo—você podia ter feito milhões de outras coisas em vez de ficar assistindo Gugu. Mas, se você gostar muito do Gugu, pode até se inscrever pra fazer parte da platéia.

A verdade é que amo essa cidade, mesmo com poluição, gente demais, paciência de menos, malabarismos com laranja nos semáforos, crateras no asfalto e alagamentos : toda metrópole tem seus grandes problemas, não adianta (talvez os nossos sejam maiores que os dos outros, tá bom...). Mas viver no centro de tudo tem lá seu preço.E eu, por enquanto, banco a fatura porque sou fascinada por seu "sempre alerta" intrínseco, pela sua capacidade em entreter todos que moram ou passam por ela. Por atrair quem gosta de rap ou blues, catchup ou mostarda, gato ou furão. Por ser um verdadeiro antídoto contra a rotina e a pasmaceira. Se aprendi uma coisa com essa cidade foi que, aqui, só fica entediado quem nasceu mal-humorado.



Escrito por Mulher honesta às 14h39

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Pimenta via anal

É inacreditável como tem gente crica e mal amada nesse mundo. O morador de uma das casas vizinhas a minha veio reclamar com a minha empregada sobre o "cheiro horrível de gato . Acho que eles pensam que meu jardim é banheiro!". No caso, a porta e cocozódromo pertencem à digníssima vizinha. O negócio é que minhas quatro gatas não colocam  nenhuma das 16 patinhas pra fora do lar (são manés, coitadas, criadas em apartamento. Na rua, virariam patê em dois segundos). O problema desse ser humano são os gatos que vêm visitar as redondezas-- realmente uma questão séria, digna de intervenção da ONU. Para resolver esse difícílimo entrave diplomático, a senhora (ou senhor, sei lá) colocou pimenta no muro que divide nossas moradias para que os horripilantes felinos mantenham distância, já que eles espirram com o cheiro da ardida. Agora eu pergunto: é ou não é pra mandar esse ser sentar em cima do pote de malagueta?

É inacreditável como as pessoas tem tendência em achar pêlo em ovo e criar complicação com coisas tão imbecis. MInha mãe sempre diz "Duvide de quem não gosta de animal porque bom sujeito não é". E eu concordo.



Escrito por Mulher honesta às 12h34

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O adorável dia dos namorados

Eu sei que hoje ainda é dia 10 de maio, mas meu email já tá lotado de releases, convites e propostas para essa data tão aprazível. O problema, para quem mora em São Paulo, é um só: existem zilhões de lugares pra se comemorar com o ser amado e, invariavelmente, todos eles estarão lotados, insuportáveis, abarrotados, a ponto de explodir de tanta gente. Se você, como eu, já passou por momentos terríveis nessa data, vai entender o roteiro básico do paulistano no dia do amor, descrito abaixo:

1-     Os pombos arrulhantes compraram presentes, trocaram muxoxos românticos durante a semana toda no preparo do grande dia e, principalmente, da grande, enorme, descomunaaaaaaal noite. Foi um tal de "Voce nem imagina o que eu comprei pra te dar. Hummmmmm? Adivinha, adivinha!". E então o dia 12 chegou e o beijinho de "Oi, amor, essa noite vai ser inesquecível" é dado.

2- Depois de tentar cinco caminhos diferentes para o restaurante-- e pegar cinco engarrafamentos monstros, depois da maquiagem dela começar a derreter por causa do calor que, mesmo sendo inverno, invariavelmente faz no dia 12,  chegam numa rota mais ou menos livre e se mantém nela. Duas horas depois, vencem os 7 Km que separam o lugar de moradia do lugar de comer, e tem uma surpresa:  por causa do atraso, a reserva venceu e eles vão precisar ficar na fila de espera.

3- Depois de três potes de amendoim e cinco chopes, vaga uma mesa. E, enfim, o romance começa:.

... ou deveria ser assim. Os pratos demoram uma hora pra chegar e ela, puta da vida e morta de fome, amaldiçoa a vaca da garçonete que não deve ter anotado o pedido, xinga o boçal do maitre que não sai detrás da porra do balcão e, claro, amarra um bico que chega a perfurar o olho do namorado.

4- Depois de deglutir o jantar como se fosse ração, e pagar como se tivessem comido trufas brancas, o casal feliz volta pra casa. O final da apoteótica noite é o desfecho de um romance sem fim:. O ser humano masculino deste casal hetero, que esperava compensar o mico completo da noite dando uma bem dada, faz a única coisa que resta a ser feita: ronca.

Por isso, o meu conselho é: se vcs querem um dia nos namorados minimamente bom, façam (uma semana antes) uma comprinha básica no sex shop e, quando relógio marcar dia 12, não saiam de casa. Peguem aquela vodka da geladeira, encham a cara e transem a noite inteira. E, depois de aperfeiçoarem muito a performance, se sobrar energias, riam dos semelhantes: enquanto vocês estavam acordando a vizinhança com os "Não pára! Mais forte!", milhares de casais enfrentavam a situação mais triste, deprimente e aviltante da existência: uma looooonga e interminável fila no motel.



Escrito por Mulher honesta às 12h22

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