Mesa-redonda é coisa de mulherzinha

Mesa-redonda de futebol é insensato, passional, redundante e tumultuado - igualzinho à mente feminina. Por isso não consigo compreender homens que dizem amar futebol e não entender as mulheres. Como assim, se os dois funcionam exatamente do mesmo jeito?

O jogo acabou. A partida foi 2 pro Piraporinha e 5 pro Grêmio das Bananeiras (um deles por pênalti). Minutos depois, um grupo de portadores do cromossomo Y se junta em algum estúdio de TV e começa a discutir, ferozmente, se aquele lance no 14o minuto do primeiro tempo foi mesmo impedimento. Manda o replay. "O juiz estava certo, imbecil!" Re-replay.

Lá pelas tantas, no meio de dezenas de frases amontoadas e arremate algum, uma segunda questão é levantada: foi mesmo pênalti aquela jogada do Maurinho Cearense? Porque, de acordo com o que podemos ver na câmera 2, o pé dele nem chegou perto da boca do Juninho Ziquizira. Ah, chegou! Isso é pura encenação! Encenação é o que o Pipoca fez na final do campeonato carioca de 78. E dá-lhe mais replay. Uma hora se passou. Milhares de homens acompanharam, atentos e raivosos, as certezas absolutas (também conhecidas por achismos vazios) dos caras na tela e então chegaram à conclusão de que... a partida ficou 2 pro Piraporinha e 5 pro Grêmio das Bananeiras. Um deles por pênalti. Se você vê sentido nisso, como pode não ver sentido no fato de ela te convidar pra sair e depois não querer transar?

A mente feminina funciona com a mesma lógica de uma mesa-redonda: os pensamentos colidem o tempo inteiro (esquizóides berrando com voz aguda) e nada faz muito sentido no primeiro momento (ou para quem não está envolvido no assunto). Vivemos jogando na cara dos outros fatos passados que, apesar de mortos e imutáveis, continuam bem vivos em nós - tão vivos que ainda fomentam reações apaixonadas. Fazemos replays mentais sobre o que dissemos, como nos portamos, como agimos: ah, se eu tivesse feito diferente. Ah, se você não tivesse falado aquilo. Ah, se o juiz não tivesse visto o maldito chute na boca do Juninho Ziquizira. Mas viu, falou e agiu. Morreu. De que adianta brigar por isso? Talvez seja útil, como experiência, para um próximo campeonato, mas não vai mudar em nada o resultado dessa partida. Então pra que, meu Deus, discutir como se fosse a coisa mais grave da superfície terrestre?

No final das contas, nós todos, meninos cartesianos e meninas caóticas, somos irracionais - só que cada um num segmento. Se as mulheres os importunam com a necessidade (algumas vezes meio excessiva, concordo) de discutir a relação, vocês nos enchem o saco com essa masturbação filosófico-futebolística. Se nós parecemos irracionais quando fechamos o tempo só por vocês terem nos interrompido no meio de uma frase pra comentar o preço absurdo do charuto cubano, serei sincera em dizer que vocês também não parecem muito sábios ao agirem como ogros raivosos no final do campeonato.

E sabe por que mulher odeia tanto esses programas esportivos? Porque eles são a materialização da nossa falta de método mental. Mas tem mais (e pior): em nós, vocês odeiam essa particularidade. Xingam, se lamentam pros amigos como sua namorada é louca. Mas, naquele bando de marmanjos, acham graça e, pasmem, vêem sentido! Vai entender os homens...

Então, meus caros, em questão de falta de lógica, surto e destempero, empatamos. Se quiserem discutir o placar, estamos às ordens. Só não vale dedo no olho nem tocar no assunto TPM - aí, sim, vocês terão motivos de sobra pra nos chamar de doidas.



Escrito por Mulher honesta às 11h48

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Homens-satélite

Esse texto foi um dos primeiros que escrevi pra VIP. Com ando meio sem tempo de produzir coisas novas para o site, resolvi colocá-lo aqui-- é meio  velhinho, mas divertido e atual.

Quando se tem 16 anos, o amor é lindo. Não que se torne feio aos 28, mas a gente o vai encarando com um certo sarcasmo e autocrítica, pegando jogo de cintura. O que não é de todo mau.

Depois de um namorado rasgar todas as cartas românticas que recebi antes das dele e picotar as fotos em que aparecia qualquer ser do sexo masculino ao meu lado, aprendi algumas lições bem úteis. A primeira é clara: nunca deixar perto de namorados evidências da existência de vida sexual anterior ao atual relacionamento. E nunca me empolgar e contar que almocei com meu ex-professor de inglês com quem tive um caso no colégio nem descuidar e dizer que acho o primo dele um tremendo gostoso, muito menos confessar que, sim, liguei para o Ermenegildo quando brigamos, mas que ele é só um homem-satélite. Entenda assim: homens-satélites são ótimos, especiais, nos elogiam, sempre estão apaixonados (mesmo tendo nos visto a última vez na nossa festa de 15 anos), salivam de felicidade quando dizemos "oi, é a fulana, tudo bem?" e ficam praticamente a vida toda na órbita, mas nunca colidem.

Não, não são babacas, apenas curtem uma coisinha meio platônica. Como você, que fica olhando para aquela Ferrari toda vez que passa pela loja, pergunta o preço, toca o couro dos bancos, mesmo sabendo que nunca irá possuí-la. Desejo puro, simples assim.

Sua namorada também tem homens-satélites. Todas nós temos, por mais que nossa carinha diga "você é o único homem para quem ligo quando engordo 500 gramas e começo a chorar me achando um canhão".
Mas, acredite, os satélites não oferecem perigo ao namorado ou marido, no caso, a você. E não me venha dizer que isso é descaramento nosso!

Não somos nós que cantamos qualquer baranga no bar depois do expediente para nos sentirmos mais seguros no mundo. Apenas precisamos de uma outra opinião de vez em quando, um outro homem – isento de qualquer obrigação amorosa – que nos diga quão lindas e interessantes somos. A questão aqui não é sexual. Sabemos que vocês estarão lá quando chegarmos em casa, prontos para o oba-oba de que tanto gostamos.
O ponto é: precisamos provar para nós mesmas que vocês (namorados e maridos) não são os únicos, mesmo sendo (ou não sendo, sei lá). Sentir a libertadora sensação de saber que, na hora em que vocês torrarem nossa paciência, teremos alguém para nos bajular até não agüentarmos mais. Saborear o poder de estar constantemente na cabeça de um homem, mesmo sem darmos notícias por meses a fio. Ou seja, brincar de Afrodite quando alguma coisa passa rasteira em nossa auto-estima. Um dos meus satélites é um cara muito inteligente, adora Proust e Woody Allen, tem voz sexy, ama comida árabe, é romântico inveterado – enfim, tirando o fato de ter tártaro e usar meia branca, o homem perfeito. Perfeito para ser satélite. Ora, se eu namorar o homem perfeito, para quem vou telefonar quando brigar com o meu namorado? Pro mecânico? Pro dono do açougue?

Isso não quer dizer que meu namorado não seja um homem especial – é óbvio que é, tanto que ocupa esse "cargo". Mas é meu namorado, e rola aquela obrigação emocional etc. etc.

Talvez agora você entenda por que aquele mulherão vira e mexe te liga, mas nunca aceita o convite para uma noitada ardente na hidromassagem.

Agora vocês vão dizer que isso é insegurança pura, que somos eternas menininhas precisando de elogios. É isso aí mesmo, algum problema?



Escrito por Mulher honesta às 11h58

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Homens, esses obsoletos

Olhe para aquela presidente de empresa, pra prefeita, pra esta colunista: todas donas de si, independentes, articuladas. Todas colocaram o mundo em seus bolsos e seguiram em frente, firmes, do alto de seus saltos. Nenhuma demonstra desânimo, fragilidade - afinal, bem-sucedidas, bonitas (algumas), do que poderiam reclamar? Relacionamentos não são prioridade em suas vidas: os projetos pessoais são muito mais importantes e grandiosos do que a perspectiva de ter alguém para jantar num sábado à noite. Aliás, os homens vêm se tornando cada vez mais dispensáveis e entediantes. Excetuando o sexo, temos com as amigas tudo o que poderíamos obter da companhia de um homem, com a vantagem de não precisarmos omitir os pensamentos espúrios e politicamente incorretos em prol de uma atitude elegante. Chegou o tempo em que nos bastamos.

O parágrafo acima é uma grande mentira.

O feminismo certamente foi o responsável por profundas mudanças sociais e comportamentais - é por causa dele que escrevo aqui, numa revista masculina. Por causa do triunfo de seus ideais que estudei, moro sozinha e ainda não casei. Se minhas amigas nunca tivessem queimado sutiãs, provavelmente agora eu estaria em casa tricotando um colete pro meu marido pançudo enquanto cuidava, à beira da insanidade, dos nossos três filhos gordos. Mas o tempo passou, a sociedade mudou, as mulheres já não precisam mostrar os dentes feito feras para fazer o que querem da vida: é só fazer. O problema é que todo esse esforço por libertação deixou um certo rancor residual, uma necessidade insaciável de provar auto-suficiência, um comportamento defensivo e acusatório perante os homens. E, como conseqüência, formou-se uma geração de mulheres que vagam por aí, carentes e incapazes de pedir carinho, tão poderosas quanto sozinhas.

No afã de repelir tudo o que significaria levar a vida de nossas avós - filhos, casa, cachorro, casamento -, jogamos fora uma parte imensa de nós, algo que nenhuma fogueira de sutiã vai mudar: nossa necessidade intrínseca de receber e dar afeto, poder ser frágil quando a vida é dura, ficar deitada ao lado do homem que se ama e, por que não, cuidar dele quando isso se faz necessário ou desejado. Apagamos isso de nossos registros e substituímos por uma atitude vigilante, pronta pra competir (e, invariavelmente, ganhar), defendendo a qualquer preço a liberdade - que, por culpa de alguma neurose secreta, sentimos poder ser tirada de nós a qualquer instante. Um patológico pavor da burca, que nos faz repelir os ímpetos protetores masculinos como se fôssemos ser amarradas ao pé da cama. Nos tornamos ditadoras neuróticas, tal qual os homens que provocaram nossa ira. Décadas depois, continuamos nos sentindo incompreendidas e solitárias - só que, agora, na margem contrária.

A verdade é que, por detrás da grossa armadura, nosso desejo inconfessável é voltarmos a ser ternas e perdermos o medo de que isso seja usado contra nós. É não nos sentirmos patéticas por desejarmos, vez por outra, ser cobertas de gentilezas. Tudo de que precisamos é que alguém nos ajude a sair da torre que construímos para nos defender, porque é muito frio aqui em cima.



Escrito por Mulher honesta às 10h54

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Rumo ao biquíni

Sexta-feira entro de férias. Sábado, entro no avião. Vou pra bem longe, ficar estirada na areia de uma praia semi-deserta tomando caipirinha, namorando e dormindo depois do almoço—estou sonhando com isso já há alguns meses. Aliás, minhas últimas semanas tem sido motivadas pela benção da chegada desse momento: depois de um ano de trabalho, nada mais justo do que ficar uns dias completamente à toa, tratando a mente e o corpo com a devida calma e leveza. Alimentando a pele com protetor solar 30 e a barriga, com lagosta.

Mas não acho que minhas férias sejam a cura para todas as preocupações que  tenho, nem o remédio para minha ansiedade galopante—já aprendi que não adianta terceirizar as neuras e jogar a responsabilidade para o aniquilamento delas no ar marinho ou na visão das montanhas porque, não importa o lugar indicado no meu bilhete de embarque, estarei levando comigo a única bagagem que não dá pra despachar: minha cabeça. E, infelizmente, não instalaram nela um botão de "liga/desliga".

Amo viajar. Sou apaixonada por sentir outros aromas, admirar traços arquitetônicos, assimilar cores, rostos e costumes distintos. É meio mágico pisar pela primeira vez em algum lugar, caminhar sozinha pelas ruas, comer sem precisar de indicação de restaurante e ter o prazer de descobrir sabores e texturas, mesmo nem sempre gostando deles. Sair da próprio quintal é, pra mim, mais essencial do que construir casas imensas e confinar-se nelas (se o dinheiro der pros dois, melhor). Viajar é arejar o cérebro, tirar limo dos neurônios.

Mas nenhum destino tem a cura pra nada, apenas concentram em si a promessa de que, depois de visitá-los, nos tornaremos pessoas melhores. Apenas são panos de fundo diferentes para uma vida que precisa ter sentido independente do cenário.



Escrito por Mulher honesta às 14h34

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