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Tudo sobre meu pai Esse é o texto que publiquei na minha coluna da VIP desse mês. Demorei quase um ano e meio para conseguir escrevê-lo, mas o retorno que tive dos leitores compensou qualquer dificuldade em lidar com o tema. Que pena que tantos de nós temos tamanha cisão com os pais... Meu pai está morto. Durante 26 anos, nunca tivemos um diálogo decente. Jamais pairou a possibilidade de, com ele, dividir meus sonhos e aspirações—nossa diferença de idade, quatro décadas, aumentou ainda mais a fossa que nossas personalidades e pontos de vista abriram, a marretadas, desde que nasci. Seu jeito autoritário e rude me fez, quantas vezes e quantas vezes, sair chorando e perguntar aos céus porque nada em mim estava a altura dos seus anseios. Só expressava carinho dando dinheiro. Ficava bastante em casa desde que se aposentou, mas era tão presente em nossas vidas quanto o abajur da sala. E, no meio de uma tarde de setembro, enquanto assistia seu jornal na tv, ele entrou em coma diabético. Passou semanas no hospital, delirando, amarrado a cama para não se machucar, emagrecendo assustadoramente, sussurrando palavras incompreensíveis. Eu, meus irmãos e minha mãe nos revezávamos para observá-lo durante a noite, cuidar dele— coisa que ele jamais admitira que alguém fizesse. A primeira vez em que passei a madrugada segurando sua mão frágil, olhando seus olhos baços e fundos, foram meus momentos mais repletos de infelicidade e desespero —ele estava morrendo e eu nunca havia conseguido expressar o que sentia. Nunca relevei a minha amargura doída pelos seus olhares cortantes e palavras duras para poder beijá-lo, olhá-lo sem tantas reservas. Ele estava morrendo, e só então percebi que tinha um pai de carne e osso, com todas as falhas e virtudes que isso acarreta. Ele não seria uma presença eterna, sempre ali no sofá a falar mal da humanidade e torcer pelo Palmeiras; era apenas um homem que viveu seus dias da maneira que conseguiu e agora definhava, sofria. Apenas meu pai, a quem eu passei mais tempo desgostando por me censurar do que tentando compreender sua forma de amar. Estranha a mim, torta para alguns, mas sua forma. É triste percebemos o que temos só quando já não temos tanto assim. Gastamos o tempo acusando, brigando, aborrecendo o outro como forma de punição por não ser aquilo que queríamos, mas o tempo não dá rewind para que possamos, depois de adquirida certa auto-crítica e uma visão menos maniqueísta, consertar as burradas: depois que o relógio marcou meio-dia, esqueça o que você deveria ter feito às 11hs. E não se trata de ser perdoado ou recordar os instantes mágicos e coisa que o valha: não são placebos que resolvem a vida e, às vezes, os instantes mágicos nem são tudo isso. Falo sobre olhar para as relações como são de fato: algo construído, ou implodido, a dois—nunca a culpa ou as bênçãos são de um só. Nunca. Desde crianças aprendemos a passar a culpa pra frente: foi o irmão mais novo, o amigo, o cachorro. Ninguém gosta de resolver suas próprias questões porque isso exige algo bem mais dolorido que uns tapas na bunda; exige olhar para si mesmo e procurar as razões dos atos e omissões, às vezes bem menos coloridas e bem mais enterradas do que parecem. Meu pai era frio e distante, mas será que eu realmente fiz algo para trazê-lo pra perto? Ou me defendi sendo ainda mais arredia do que ele? Já faz dois anos que ele se foi. Hoje sei, o amo, mas não sinto mais falta do que costumava sentir quando vivo, nem visito o cemitério como forma de catarse pessoal: não nos dávamos bem e isso não mudou magicamente com sua partida. Mas ele me ensinou a maior lição de todas: palavras de amor nunca são demais. Escrito por Ailin Aleixo às 15h40 [ ] [envie esta mensagem ] |
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Correndo atrás do rabo Não temos obrigação de ser felizes nem fomos colocados no mundo para alegrar os outros. Nascemos para ser nós mesmos - a tarefa mais difícil de todas. Nos privamos do direito à tristeza. Ao menor sinal de sua presença, nos entupimos de antidepressivos, como se momentos de introspecção fossem doença e o padrão normal fosse vivermos imersos numa comédia romântica infindável. Pior: fosse essa capacidade a medida de nosso êxito. Mas o êxito só pode ser medido pela aptidão de abraçar nossas idiossincrasias, de lidar com o que não gostamos ou entendemos em nós - nosso maior êxito é ter coragem de assumir quem somos e deixar de imitar condutas incutidas e socialmente aceitáveis. Homens choram, sim. Mulheres, mesmo nos dias de hoje, podem ser meigas. Estar sempre preparado para o ataque é tarefa de guepardos, não nossa. Alegria incessante é função de apresentadores de TV. Precisamos, com urgência, relaxar e aceitar que "Um dia de chuva é tão belo quanto um dia de sol/ Ambos existem; cada um como é" (Alberto Caeiro). Só assim respiraremos tranqüilos, sem nos sentirmos fracassados, diante de uma melancolia corriqueira. Para parar de ter medo do bicho-papão que mora embaixo da cama, é preciso olhar para debaixo dela: medos só perdem a força quando são firmemente encarados. Cerceamos a vida de maneira letal ao exigir extrair prazer de tudo o que nos cerca: a comida deve ser orgásmica; o cinema, brilhante; o amor, estelar. Incutimos até num pedaço de bolo a obrigação de nos inundar de prazer. E essa busca demente da felicidade se torna demoníaca porque traz consigo a massacrante sensação de derrota - nada é capaz de nos suprir de alegria, por mais esforço que façamos, porque precisamos do desalento eventual para sermos completos. Só nos contos de fadas aparecerá o herói, a mítica figura salvadora, que decretará: "Todos serão felizes para sempre", e a dor sumirá. Na vida real, somos completamente responsáveis pelo que fazemos conosco, ninguém executará a tarefa por nós. Não conseguimos - por mais que acumulemos itens, pessoas, realizações e prêmios - sorrisos perenes e autênticos. E nos sentimos (às vezes, vagamente; outras, arrasadoramente) perdedores, fracos, largados. E então exigimos a felicidade. Clamamos por ela. Nos entorpecemos tencionando atingir o êxtase perfeito. Bebemos. Cheiramos. Usamos tudo o que possa alterar nosso ânimo, que ofereça uma breve promessa do paraíso, dilua a angústia. Qualquer coisa que nos deixe felizes até o dia seguinte, de onde recomeçaremos o ciclo, ignorando os motivos desse vazio incômodo que clama para que vejamos a nós mesmos. A alegria não virá dentro das sacolas de compras, no porta-luvas do carrão novo, nas coxas durinhas da conquista da semana: essas coisas são nossa dose diária (e até necessária) de anestesia que adia encararmos o fato mais banal e amedrontador da vida: não existe bálsamo milagroso para nossa solidão intrínseca, e ela faz parte de nós tanto quanto a vontade de rir solarmente - ignorá-la é fechar a porta para tudo o que ela pode ensinar. Ignorá-la é enterrar metade de você. Escrito por Ailin Aleixo às 16h46 [ ] [envie esta mensagem ] |