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Homem bom é homem perfeito Não deve ser nada fácil ser homem. Basta dizer que seu próprio corpo sofre de uma falta crônica de adestramento, de um livre-arbítrio excessivo: na hora em que deve funcionar, se finge de morto, e, nos momentos em que deveria se comportar, mostra uma disposição de triatleta. Sem contar as outras dezenas de ridículos: os patéticos "apelidinhos carinhosos" que insistimos em colocar no tão vangloriado pênis, o jeito chorão com que recorrem às mulheres quando descobrem que fritar hambúrguer pode incendiar a casa, a sombra hilária que projetam quando ficam nus de perfil, o ataque de riso que provocam quando resolvem experimentar uma nova fantasia sexual e aparecem de tanga. Seus amigos esperam relatos de performances sexuais dignas de atualizar o Kama Sutra, e o resto do mundo exige que já nasçam sabendo exatamente o que fazer com cada dedo, demais membros e órgãos, boca, língua e cílios. Mulheres preferem os compreensivos, divertidos, que façam uma macarronada e nos presenteiem com uma lingerie do tamanho certo pelo menos uma vez na vida.
Mais exemplos? Pois não. Ao presenciar sua (até então) amada dando uns amassos em seu irmão mais novo, nem ouse encostar a mão nela. Será acusado de violência contra a mulher e pode até ser linchado com uma colher de pau pela sua própria mãe. Mas, se for ela a lhe meter a mão na cara quando você virar discretamente o pescoço para olhar as pernas de alguma beldade anônima, isso será apenas a demonstração de uma personalidade forte. Apesar de as mulheres ocuparem uma posição desfavorável em relação aos homens até pouquíssimo tempo atrás, nós sempre pudemos optar (apesar das dificuldades) entre sermos fortes ou fracas, desafiadoras ou submissas. Vocês nunca puderam se dar ao luxo de fazer essa escolha: nasceram programados para a superioridade, quase divindade, e acabaram enforcados pela própria gravata. Os tempos mudaram depressa demais, as mulheres já não temem querer e agir, e o que foi uma inalterada regra de conduta por milhares de anos, hoje é só uma atitude isolada. Devo confessar que ainda não sabemos exatamente o que exigir e esperar dos homens: queremos flores e independência, sexo sem compromisso e romantismo, sucesso profissional e preguiçosas manhãs de carinho. E não acho nada estranho que os homens também estejam perdidos: realmente não é simples nos compreender. Mas nutro a ilusão de que tudo pode ser mais fácil se ambos cederem um pouco. Com certeza as coisas se tornarão mais simples se nós formos mais claras e vocês perderem a vergonha: vergonha de rir, amar, dançar, cozinhar, de se importar, de demonstrar, enfim. Talvez todos sejamos mais felizes com menos esforço. Escrito por Ailin Aleixo às 15h18 [ ] [envie esta mensagem ] |