TPM: essa F.d.p

Tá tudo uma bosta: quanto mais me arrumo, mais medonha fico. Estou com olheiras. Acabei de sair do banho, mas o cabelo já está ensebando e de nada adianta os milhares de produtos enfileirados na pia. Vou para a rua: se o sol tá forte irrita a vista, se chove fatalmente minha roupa vai ficar suja, se o tempo tá nublado fico com sono. O semáforo demora para abrir; só têm imbecis e lerdos no trânsito e a fumaça fedorenta dos caminhões chega até meu nariz via ar-condicionado. Fedida e fria. A redação está uma neurose só, o telefone não pára de tocar e sou atolada por spams que ensinam como aumentar o pau que não tenho. No almoço, pra melhorar, o garçom é um cruzamento de preguiça gigante com  jumento, a cebola frita vem encharcada e a CocaLight Lemon, quente e sem gás. Tenho vontade de nadar num pote de brigadeiro mas, se faço isso, quase corto os pulsos. Olho a torta de limão e como: acho que vou enfiar o dedo na goela, no melhor do ritual bulímico. Sinto meus peitos crescerem e sobrarem no sutiã. Meu corpo vai inflando feito balão de festa infantil e fico num puta mau humor. Não suporto falar com ninguém. É... tô na TPM.

Para piorar, meu marido tenta me animar (como se meu estado dependesse de animação!). Faz piadinhas e me trata como uma criança birrenta. O próximo passo é faer pouco caso do meu humor e dizer com um sorrisinho irritante: "Ih, essa TPM tá brava!".

Fico esquisita mas não me questione. Posso não querer sexo num minuto e, no seguinte, avançar tão violentamente que a vítima vai achar que está sendo atacada por um urso polar. Meus hormônios tiram sarro de mim e gritam em coro: "Você está chata! E feia! E gorda feito uma porca castrada!". Não suporto a presença de ninguém por mais de dois minutos mas caio em depressão se me deixam sozinha. Tenho cólicas e reclamo, mas odeio quando alguém vem, com cara de paspalho, me oferecer um remedinho. Não quero remedinhos, quero sangue!

Não me importo de ouvir que preciso de tratamento, internação, camisa-de- força, mas fico (mais) histérica quando ousam dizer que isso é frescura de mulher. Ah é? Pois adoraria ver  se os machões agüentariam ficar com cólicas, quatro dias com um tijolo de algodão impedindo seus movimentos, verificando de cinco em cinco minutos se sua roupa preserva a cor original, tentando manter a calma quando a vontade é de morder a quina da parede. Além de tudo, temos de suportar essas propagandas de absorventes com mulheres de roupas imaculadamente brancas e vozes aveludadas que só faltam dizer que se usarmos a marca X ou Y sairemos voando, janela afora, de tão livres e frescas. E a verdade é o que o cheiro não é dos melhores.


E, de repente, no meio do caos, ela surge toda vibrante. Sempre de surpresa, tinge com seu vermelho magnífico tudo o que cruza o seu caminho. Vou pro banheiro. Então eu lembro que dei meu último absorvente para alguma calcinha necessitada. Aquela torrente incessante continua, e contiuo presa no banheiro de calça arriada. Como os homens ousar reclamar de ter que fazer a barba todo dia?! Ah, faça-me o favor! Queria que eles colocassem DIU pra ver o que é bom pra tosse. Mas pensando bem, nada disso tem importância diante da constatação: acabo de frustrar a intenção de mais um óvulo.

 



Escrito por Ailin Aleixo às 16h01

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Os casados reclamam do peso da aliança; namorados, porque já não saem com os amigos; solteiros odeiam não ter de quem receber o último telefonema do dia. Jovens são revoltados por não poderem fazer nada do que querem; velhos, por não conseguirem. Chefes se estressam porque vivem sob pressão e subordinados vivem estressados por causa dos chefes. Nunca estamos satisfeitos. Por mais azul que o céu esteja, sempre achamos – lááá longe – uma nuvem que virá, sabemos que virá, e cobrirá o nosso sol. E, mesmo sob 40 graus, passamos a sentir frio.

"Nada mais insuportável do que muitos dias de felicidade contínua" (Oscar Wilde). Beira o absurdo mas é real. Não suportamos a felicidade por muito tempo; tudo fica fácil demais, tranqüilo, calmo e desde crianças aprendemos que, se algo vale a pena, precisa ser árduo, trabalhoso, hercúleo (e quanta deprê nos rende essa teoria). A ridícula verdade é que não sabemos lidar com a alegria – a praia eternamente ensolarada vira um tédio. E então avistamos (ou criamos, não importa) a nuvem.

Li, não lembro onde, que "a vida nos pareceria subitamente maravilhosa se estivéssemos ameaçados de morrer – então declararíamos nosso amor, viajaríamos à Índia, realizaríamos nossos sonhos. E caso o cataclismo não acontecesse, voltaríamos ao cotidiano, no qual a negligência supera o desejo". (A negligência supera o desejo – preste atenção nisso, sempre). Nossa eterna insatisfação, em vez de servir de impulso para nos levar a algum lugar melhor, vira uma âncora, agravando a sensação de impotência, nos entregando à inércia. Então sucumbimos à preguiça. Passamos a achar que o normal é estarmos "meia-boca" (não estamos felizes, é certo, mas por que razão haveríamos de ficar mais tristes?). E daí, quando alguém aparece sorrindo além do previsto por lei, surtamos. Por que ele ri e nós não? Por que tantos dentes? Cadê a graça? Viu passarinho verde?

É divertido observar a irritação de alguns perante a alegria alheia. Olham para aquilo como se estivessem presenciando a metamorfose de um lobisomem. Quando alguém parece estar contente (e está), nossa primeira reação é nos compadecermos pela ingenuidade da criatura sorridente, como se estupidez fosse premissa pra felicidade, e gentileza, atributo de lobotomizados. Nos é tão incutido o conceito de que os deprimidos, românticos incompreendidos, é que são geniais (toda aquela profundidade de sentimentos, cenho franzido, etc. e tal) que tendemos a encarar pessoas alegres como serezinhos sem sal, agüinha morna que nem chá dá pra fazer... Se for assim, o Prozac será o responsável pela não-existência de grandes artistas pelo resto das eras. E eu me alegrarei de ser absolutamente medíocre e saltitante.

Não vejo nada errado em nunca estarmos satisfeitos, em desejarmos (há muitos anos alguém me disse que desejos são como cavalos: não são eles que decidem para onde vamos, mas com eles vamos mais rápido). O problema reside em ficarmos nos culpando por nunca estarmos completamente felizes ou acharmos poético arrastar as meias pela casa. O fato é que "algo sempre nos falta – o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Para seu próprio bem, guarde esse recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo" (Caio Fernando Abreu). Daí, sim, poderemos ser felizes. No início, quando der. E um dia, quem sabe, a maior parte do tempo.



Escrito por Ailin Aleixo às 11h11

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