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Mediocridade consentida Outro dia entrevistei o Amyr Klink. Sou sincera em dizer que, antes dessa data, os feitos dele me eram conhecidos porém não me tocavam de maneira especial— tudo bem, o cara tinha atravessado a remo da África até o Brasil etc e tal, mas eu achava mesmo é que ele tinha um grave problema de sociabilidade por curtir passar tanto tempo entre céu, mar e cubos de gelo gigantes. Como nos enganamos com as pessoas. As horas em que fiquei conversando com aquela figura aclamada e admirada foram de total surpresa: surpresa por ser tão extrovertido, articulado e dominar tantos assuntos diferentes. Surpresa por ter sido indubitavelmente simpático (ao contrário do depoimento espontâneo de tantas pessoas afirmando ser o oposto) e, acima de tudo, surpresa por ter mergulhado, mesmo que pouco tempo, na paixão daquele homem--- e compreendido seu amor pelo distante. Não é uma aventura sair de Parati de veleiro e passar um ano encalhado no inverno antártico—é um aprendizado quase budista sobre a vida, seus ciclos, tempos, belezas mutantes; é muito mais zen do que fazer duzentas aulas de yoga e não comer carne vermelha. Não é ser aventureiro gastar milhões de dólares e passar oito anos construindo um barco idealizado para dar a volta ao mundo e chegar a China—é saber, no mais íntimo do ser, que a felicidade, aquela rara sensação de plenitude, pertence somente a aqueles que persistem em seus desejos, independente da relevância que eles tenham para terceiros. O que hoje vejo nele é um tipo raro de homem que não tem amarras prendendo-o a uma suposta segurança e que preferiu abraçar a vida mais difícil de todas: a liberdade. Liberdade em amar sem precisar neutralizar-se, em viver transformando seus delírios polares em realidade, em não fazer questão (nem precisar) em ser adorado por todos que o cercam. Liberdade em ser quem se quer. A existência de homens como ele é a constatação de que a vida só é medíocre para quem a faz assim ou para aqueles que não tem coragem de pensar em outra hipótese fora do conforto do seu quinta, seja ele um quadrado de terra atrás de casa ou uma mente obtusa. E comprovar que qualquer coisa por ser muito mais tanto assusta quanto atrai. Escrito por Ailin Aleixo às 14h01 [ ] [envie esta mensagem ] |