Vai indo que eu já vou

Reveillon na praia é a maior prova de que temos uma tendência universal ao masoquismo—só que alguns estendem isso para o resto do ano, incluindo algumas chicotadas e cera de vela derretida grudando nos pêlos das costas.

Munida da esperança de dias ensolarados e paz de espírito, fui pro meu apartamento no Guarujá: a praia é até bacaninha, limpa, coisa e tal. Curto ir pra lá e comer no Perequê, tomar umas caipirinhas, dormìr à tarde, essa rotina praiana tão salutar para quem vive enfurnada num escritório. Mas então, um malfadado dia 29 de dezembro, meu iogurte light acabou—e foi o começo do ódio ao final do ano.

Toda zen, fui ao supermercado às duas da tarde, crente que todo mundo estaria se refestelando na areia e poluindo o mar com xixi. Mas estavam todos comprando iogurte light que tinha seu espaço na prateleira cheio de... nada! Já muito feliz, resolvi salvar a minha situação laricar (apesar de não fumar) dando um pulinho na seção de sucos e comprar um caminhão de Clight de uva, meu mais novo vício. Tinha: de uva branca, abacaxi com hortelão, melão, jaboticaba maturada no saco do seu Zé, menos o de uva. Uva de verdade? Só ser fosse prensada pelas mãos meigas das donas de casa que apalpam qualquer coisa que vêem pela frente. Então, foda-se: vai chocolate mesmo. Dois pacotes de M&M´s crispy e uma fila de quinze pessoas no caixa rápido. Uma fila de 45 minutos no caixa rápido. CAIXA RÁPIDO! Daí o rapel para o inferno foi ficando consideravelmente mais rápido: ar-condicionado quebrado no meio da noite, areia com bituca de cigarro e embalagem de fandangos enroscando debaixo do pé, vendedor de amendoim enfiando o seu produto na minha glote, banana de pijamas puídas vendendo algodão doce semi derretido, o homem da tapioca com seu maldito apito que deveria ser enfiado na tapioca dele, restaurante cheio e tocando música sertaneja. A farofa rolando forte, enfim.

Noite de ano novo. Felicidade, esperança, alegria, crença num mundo melhor mesmo depois de um tsunami ter acabado com a àsia e do Bush ter sido reeleito. Fogos iluminam o céu, zilhões de pessoas fazendo despacho na praia, barquinho com suas luzinhas cruzando o mar. E um show dos infernos na frente do apartamento que foi até as quatro da matina, babacas que resolvem queimar o estoque de rojão no meio da madrugada, vizinho xingando o filho que chegou de manhã, o pau comendo e eu? Eu voltando pra São Paulo. Onde, tranquilamente, curti o dia 1 ouvindo só o ronronar dos meus seis gatos e o vácuo maravilhoso de uma metrópole vazia. E então fiz minha resolução de ano novo: reveillon na praia só se for na Antártida.



Escrito por Ailin Aleixo às 16h38

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