Homem-satélite

Essa foi uma das primeiras colunas que escrevi pra VIP, há cinco anos. Meu estilo mudou, mas acho legal publicar aqui do mesmo jeito que foi publicada na época.

Quando se tem 16 anos, o amor é lindo. Não que se torne feio aos 24, mas a gente o vai encarando com um certo sarcasmo e autocrítica, pegando jogo de cintura. O que não é de todo mau.
Depois de um namorado rasgar todas as cartas românticas que recebi antes das dele e picotar as fotos em que aparecia qualquer ser do sexo masculino ao meu lado, aprendi algumas lições bem úteis. A primeira é clara: nunca deixar perto de namorados evidências da existência de vida sexual anterior ao atual relacionamento. E nunca me empolgar e contar que almocei com meu ex-professor de inglês com quem tive um caso no colégio nem descuidar e dizer que acho o primo dele um tremendo gostoso, muito menos confessar que, sim, liguei para o Carlos quando brigamos, mas que ele é só um homem-satélite. Entenda assim: homens-satélites são ótimos, especiais, nos elogiam, sempre estão apaixonados (mesmo tendo nos visto a última vez na nossa festa de 15 anos), salivam de felicidade quando dizemos “oi, é a fulana, tudo bem?” e ficam praticamente a vida toda na órbita, mas nunca colidem.
Não, não são babacas, apenas curtem uma coisinha meio platônica. Como você, que fica olhando para aquela Ferrari toda vez que passa pela loja, pergunta o preço, toca o couro dos bancos, mesmo sabendo que nunca irá possuí-la. Desejo puro, simples assim.
Sua namorada também tem homens-satélites. Todas nós temos, por mais que nossa carinha diga “você é o único homem para quem ligo quando engordo 500 gramas e começo a chorar me achando um canhão”.
Mas, acredite, os satélites não oferecem perigo ao namorado ou marido, no caso, a você. E não me venha dizer que isso é descaramento nosso!
Não somos nós que cantamos qualquer baranga no bar depois do expediente para nos sentirmos mais seguros no mundo. Apenas precisamos de uma outra opinião de vez em quando, um outro homem – isento de qualquer obrigação amorosa – que nos diga quão lindas e interessantes somos. A questão aqui não é sexual. Sabemos que vocês estarão lá quando chegarmos em casa, prontos para o oba-oba de que tanto gostamos.
O ponto é: precisamos provar para nós mesmas que vocês (namorados e maridos) não são os únicos, mesmo sendo (ou não sendo, sei lá). Sentir a libertadora sensação de saber que, na hora em que vocês torrarem nossa paciência, teremos alguém para nos bajular até não agüentarmos mais. Saborear o poder de estar constantemente na cabeça de um homem, mesmo sem darmos notícias por meses a fio. Ou seja, brincar de Afrodite quando alguma coisa passa rasteira em nossa auto-estima. Um dos meus satélites é um cara muito inteligente, adora Proust e Woody Allen, tem voz sexy, ama comida árabe, é romântico inveterado – enfim, tirando o fato de ter tártaro e usar meia branca, o homem perfeito. Perfeito para ser satélite. Ora, se eu namorar o homem perfeito, para quem vou telefonar quando brigar com o meu namorado? Pro mecânico? Pro dono do açougue?
Isso não quer dizer que meu namorado não seja um homem especial – é óbvio que é, tanto que ocupa esse “cargo”. Mas é meu namorado, e rola aquela obrigação emocional etc. etc.
Talvez agora você entenda por que aquele mulherão vira e mexe te liga, mas nunca aceita o convite para uma noitada ardente na hidromassagem.
Agora vocês vão dizer que isso é insegurança pura, que somos eternas menininhas precisando de elogios. É isso aí mesmo, algum problema?



Escrito por Ailin Aleixo às 09h23

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A falta constante

Casados reclamam do peso da aliança. Namorados, porque não saem mais com os amigos. Solteiros porque não têm de quem receber o último telefonema do dia. Jovens são revoltados por não poderem fazer nada do que querem. Velhos, por não conseguirem. Chefes se estressam porque vivem sob pressão e subordinados vivem estressados por causa dos chefes.

Nunca estamos satisfeitos. Por mais azul que o céu esteja, sempre achamos – lá longe – uma nuvem que virá, sabemos que virá, e cobrirá o nosso sol. E, mesmo sob 40 graus, passamos a sentir frio.

"Nada mais insuportável do que muitos dias de felicidade contínua" (Oscar Wilde). É bizarro mas real. Não suportamos a felicidade por muito tempo; tudo fica fácil demais, tranqüilo, calmo e desde crianças aprendemos que, se algo vale a pena, precisa ser árduo, trabalhoso, hercúleo (e quanta deprê nos rende essa teoria). A ridícula verdade é que não sabemos lidar com a alegria – a praia eternamente ensolarada vira um tédio. E então avistamos (ou criamos, não importa) a nuvem.

Li, não lembro onde, que "a vida nos pareceria subitamente maravilhosa se estivéssemos ameaçados de morrer – então declararíamos nosso amor, viajaríamos à Índia, realizaríamos nossos sonhos. E caso o cataclismo não acontecesse, voltaríamos ao cotidiano, no qual a negligência supera o desejo". (A negligência supera o desejo – preste atenção nisso, sempre). Nossa eterna insatisfação, em vez de servir de impulso para nos levar a algum lugar melhor, vira uma âncora, agravando a sensação de impotência, nos entregando à inércia. Então sucumbimos à preguiça. Passamos a achar que o normal é estarmos "meia-boca" (não estamos felizes, é certo, mas por que razão haveríamos de ficar mais tristes?). E daí, quando alguém aparece sorrindo além do previsto por lei, surtamos. Por que ele ri e nós não? Por que tantos dentes? Cadê a graça? Viu passarinho verde?

É divertido observar a irritação de alguns perante a alegria alheia. Olham para aquilo como se estivessem presenciando a metamorfose de um lobisomem. Quando alguém parece estar contente (e está), nossa primeira reação é nos compadecermos pela ingenuidade da criatura sorridente, como se estupidez fosse premissa pra felicidade, e gentileza, atributo de lobotomizados. Nos é tão incutido o conceito de que os deprimidos, românticos incompreendidos, é que são geniais (toda aquela profundidade de sentimentos, cenho franzido, etc. e tal) que tendemos a encarar pessoas alegres como serezinhos sem sal, agüinha morna que nem chá dá pra fazer... Se for assim, o Prozac será o responsável pela não-existência de grandes artistas pelo resto das eras. E eu me alegrarei de ser absolutamente medíocre e saltitante.

Não vejo nada errado em nunca estarmos satisfeitos, em desejarmos (há muitos anos alguém me disse que desejos são como cavalos: não são eles que decidem para onde vamos, mas com eles vamos mais rápido). O problema reside em ficarmos nos culpando por nunca estarmos completamente felizes ou acharmos poético arrastar as meias pela casa. O fato é que "algo sempre nos falta – o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Para seu próprio bem, guarde esse recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo" (Caio Fernando Abreu). Daí, sim, poderemos ser felizes. No início, quando der. E um dia, quem sabe, a maior parte do tempo.



Escrito por Ailin Aleixo às 10h24

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