Correndo pra.... onde mesmo?

Ele troca de carro duas vezes por ano. Todo o semestre, último modelo. Dois meses depois de adquirido, quando o cheiro de novo evapora, o possante perde o encanto que é  instantaneamentetransferido para o catálogo com os próximos lançamentos. O problema da sua mania não é o fato de comprar o que existe de mais moderno, mas fazer isso para suprir a falta de caminho. Ele pode ter o carro que quiser, mas nenhum deles o fará ter um lugar para ir.

E ele é como a maioria de nós, súditos do reinado das vitrines: celulares, ipods, roupas, computadores, relógios, mulheres lipoaspiradas e botocadas, tudo sendo constantemente modernizando, embelezado. Milhares de coisas reluzentes, bem acabadas, tentadoras. Coisas com a função mais difícil do mundo: preencher nossa solidão.

Os anúncios dizem que o produto ali estampado traz mordomias, bem-estar, forno auto limpante, pára-brisa com detector de chuva, mais dinheiro e, conseqüentemente, aumenta nosso acesso a algo imensurável: felicidade. Mas as toneladas de anti-depressivos engolidas por todo mundo no mundo todo prova o contrário: deixamos de ser gente e viramos hamsters, sempre em ação, ansiosos por dar mais uma volta na roda, cada vez mais rápido, sem sair do lugar. Trabalhamos feito camelos, sempre ocupados e preocupados com o que pensam de nós, a promoção, o chefe escroto, a conta vencida, o idiota que quer nossa vaga para quê exatamente? Morrer de câncer? Ter pereba de estresse?

O que corrobora a tese de que alguém famos0-- mesmo que seja através da estupidez vouyerística dos Big Brothers e afins-- vale mais do que o caixa do banco (veja só o que nos tornamos: valoramos uns aos outros como um saco de amendoim janponês na prateleira)? Quem disse que o trânsito de Nova York às seis da tarde é mais civilizado que o caos de carros entalados nas ruas da índia por causa das vacas deitadas no meio do caminho? Porque quem carrega um lap top parece ter mais importância do que quem vai com seu bloco de anotação?

Acho que o mundo seria um lugar bem mais aprazível se as pessoas coçassem mais o saco e tivessem tempo livre o bastante para chegar a conclusão de que a única coisa que realmente importa é ausência de agonia, essa companheira tão presente ultimamente e que insiste em não ir embora por mais que se sambe, beba, compre ou trepe.



Escrito por Ailin Aleixo às 15h07

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