O buraco em si

Ontem entrevistei Rocco Siffredi, um dos maiores astros pornô do mundo, durante a gravação de seu novo filme que está sendo rodado no Rio (ele não atua, apenas dirige). Vou confessar: foi divertido, mas bizarro.

O curioso é que o Rocco em si é um cara sério, até meio antipático na primeira impressão, de discurso conciso e oratória clara, assertiva. Nada de termos chulos ou sessões intermináveis de descrições sexuais como se pode pensar. Discutimos o moralismo católico, o pudor que ainda assola a humanidade, a hipocrisia que permeia a sociedade e outros temas pouco imagináveis na conversa com um ator pornô conhecido por suas façanhas em traseiros alheios. O bizarro foi perceber como é broxante o bastidor de um filme desse. E bota broxante nisso.

Claro que no começo do dia foi engraçado ver aqueles homens e travestis passeando pelados e de pau duro pela cozinha, tomando café da manhã com Viagra e aparando os pêlos para que a câmera conseguisse captar cada centímetro de todos os tipos de penetração--- não é exatamente uma cena cotidiana pra mim. Mas no decorrer das horas é inevitável não sentir uma certa deprê com aqueles corpos se atracando no sofá da sala, fingindo um prazer inexistente, simulando caras de êxtase e gemidos absurdos.

Por um lado aquele ambiente é libertário, detona qualquer preconceito, mas cria outro, talvez até mais complicado do que a visão puritana, de que o corpo é algo desprovido de qualquer item que não seja material, de que colocando camisinha tudo vale e é legal. De que o corpo não tem uma alma que talvez de sinta mal em estar sendo subjugada e colocada de lado durante os momentos em que aqueles seres se tornam apenas acrobatas sexuais.

Se sexo é deprimente? Não, pelo contrário. Mas não consigo ver nada de bonito em transformá-lo numa coisa inócua, com objetivo de ser eficaz na masturbação alheia.

Não consigo acreditar que alguém possa ser feliz trepando com todo mundo e qualquer um, escancarando o rabo pra uma câmera, só para ganhar míseros 500 reais.

Mas tudo é uma questão de escolha e, claro, posso estar completamente enganada.



Escrito por Ailin Aleixo às 14h46

[   ] [envie esta mensagem ]



Ver arquivos anteriores