Por que ele se casou? Porque ela é um doce. Companheira, sensível, sempre ao lado dando apoio e, acima de tudo, jamais se interessou pelo dinheiro dele, um medo recorrente em sua vida, tão cheia de dígitos quanto de horas de trabalho e neuras em fazer papel de otário.
Depois de três anos, enfim, entraram na igreja. Ela, de branco; ele, vestido de esperança. Festa para 300 pessoas. Ela, esfuziante; ele, bêbado. Roma, Florença e Veneza em 20 dias de ilusão sagrada, direito dos que trocam alianças e promessas abençoadas. Na volta, dúplex novo no melhor bairro da cidade, cozinha americana, presentes ainda empilhados e por abrir. Até que tudo toma o rumo normal. O normal da vida a dois que permanece um mistério até o primeiro dia de divisão de banheiro, momento que funciona como um portal para uma dimensão estranha, cheia de compromissos familiares, festas de criança, pagamentos de empregada, pasta apertada no lugar errado. E o normal, já sabia ele, era seguro. E, surpresa, tremendamente monótono.
Há seis meses, ele usava aliança e tudo estava ajeitado. Clima calmo, jantar a dois, filmes no DVD aos fins de semana, conversar na cama antes de dormir. Mas um problema jogado para baixo do tapete persa, antes mesmo de os padrinhos escolherem suas roupas para a cerimônia, começava a fazer volume e provocar tropeços. Um detalhe dentro de uma relação tão legal que, pensou ele, não faria diferença e seria resolvido com o tempo. Mas o tempo não resolve problemas ignorados; pobre de quem pensa que, ao virar o rosto, eles sumirão feito fumaça de cigarro. E a união de aparência tão sólida começou a rachar de dentro pra fora. Continuava intacta para olhos menos atentos, mas a estrutura estava definitivamente condenada.
O problema é que ele a amava com um amor repleto de gratidão. Amor de irmão. Ela era tudo o que ele poderia querer, mas as noites traziam consigo a agonia da falta de tesão: qualquer outra provocava pensamentos inconfessáveis, exceto quem supostamente deveria causar. Ele gostava de estar ao lado dela, se sentia confortado e seguro, mas o ímpeto em chupar cada reentrância não acontecia. Zero. Nada. Ele prometeu fidelidade e devoção eternos a alguém que deveria ter sido apenas seu ombro amigo - e fez isso pela mesma razão que faz tantas pessoas embarcarem (e se manterem) em relações frustrantes, falidas, mornas: medo de ficar sozinho.
Tememos ficar sós porque, quando solitários, somos impelidos a silenciar e a pensar. Pensar sobre o que desejamos, nossas tristezas, sonhos jamais realizados, passos em falso. Em quem nos tornamos e quem sonhávamos ser. A presença física do outro é a rede de segurança que nos impede de cair em questionamentos difíceis e, na maioria das vezes, fundamentais. A covardia em viver algo verdadeiro nos preserva do sofrimento do inesperado, é certo, mas nos priva da coisa mais fenomenal da vida: a alegria indisfarçável das fases boas e cheias de luz. Eleger alguém que nos proteja de nós mesmos não é amor: é insegurança.
Só existe amor real depois de a solidão se tornar boa companhia, porque só quem se sente à vontade consigo mesmo pode ter algo a oferecer a quem quer que seja.