O sonho não pode acabar

Nunca precisei assistir nenhum namorado se contorcendo em caretas no momento sagrado do trono ou tirando meleca do nariz e esfregando debaixo da mesa para me ligar que, se quero que uma relação dê certo, algumas coisas precisam se manter absolutamente pessoais. Para toda eternidade.

Tudo tem limite— intimidade também.

O amor pode ser lindo, mas mais bonito é saber onde termina a comunhão saudável dos eventos do dia-a-dia e onde começa o esfacelamento do encanto. Porque, sim, é necessária uma boa dose de encantamento para viver com alguém. É preciso achar o parceiro lindo e/ou inteligente e/ou divertido e/ou charmoso e/ou sexy e/ou... Não dá para conviver apenas com as características racionais: mesmo se ele for sovina, coçar o saco na fila do cinema ou insistir em pronunciar mortandela, algo de sublime (ou, no mínimo, charmoso) tem que ficar por conta da tal "mágica". Não dá pra ser feliz só com contas a pagar, problemas com a sogra e jantar de microondas.

Nenhuma união saudável sobrevive ao excesso de realidade. Ele pode não ter o tórax do Brad Pitt nem a conta bancária do Príncipe de Dubai, mas não é por isso que precisa ser tosco feito um porco chafurdante e sair pela casa emitindo ruídos que assustam os gatos. Mas não se empolgue: nem tudo no desabamento do encanto é culpa do homem. A manutenção e o bom funcionamento são 50% obrigação feminina.

As mocinhas precisam pensar melhor nas pequenas coisas cotidianas que, antes de serem, inconscientemente, incorporadas à rotina, pareciam horrorosas. No namoro, por exemplo. Ela fazia xixi de porta aberta? Passava fio dental enquanto conversavam? Deixava a calcinha, com o forro semiduro do sabonete, pendurada no misturador do box? Se fazia, temo dizer que levou o moço rápido demais para dentro do não tão maravilhoso mundo da ausência de noção. Porque algumas coisas não precisam ter testemunhas oculares.

Eu sei que vocês, pombinhos, trocam fluidos, beijam reentrâncias, sugam, roçam, abraçam e penetram. Mas esse grau de intimidade — que, aí sim, é muuuuito válida porque é prazerosa para ambos os envolvidos— não precisa ser levado para o banheiro, precisa? Transar e cuidar das hemorróidas passando lenços umedecidos definitivamente não estão no mesmo patamar estético/erótico.

na minha escala de excesso de intimidade destrutiva, algo é absolutamente grotesco: espremer espinhas de outrem em público. Sabe aquela cidadã que, no meio do parque, senta no banco, levanta a camiseta do fofão e vai, palmo a palmo, espremendo cada ponto preto e cada bolinha amarelada/avermelhada? Pois, então, é o fundo do poço. Se espremer espinhas criasse algum vínculo afetivo indestrutível e demonstrasse o ápice da intimidade entre dois seres humanos, todas nós estaríamos casadas com a moça da limpeza de pele.

Intimidade, realmente, tem limite.



Escrito por Ailin Aleixo às 13h32

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Dona Benta da balada

Mais gente que espaço. Estava escuro, barulhento e quente. O cheiro de cerveja e a fumaça dos cigarros formavam uma camada tão densa que quase dava para bater a cabeça nela. As pessoas não paravam de falar mas certamente não escutavam umas as outras—toda a comunicação era feita através de olhares que, não raro, iam em todas as direções, varrendo a vasta gama de possibilidades. Sentar, só se fosse no colo do moço do caixa. Um ou dois, sem autocontrole etílico suficiente para chegar ao banheiro, vomitaram na escada. Para mim, aquilo era o purgatório. Para aqueles a minha volta, uma simples noitada em um pub badalado de São Paulo.

Eu havia terminado meu casamento há dez dias. Eles estavam na caça há alguns anos. Essa era a diferença básica entre nós. Avassaladora.

Naquela noite, me senti a Dona Benta na balada—totalmente fora de lugar, de hora, de época e de história. Fui invadida por uma sensação horrorosa de ser invisível, não paquerável, velha e rabugenta. Parecia que, de repente, meus 31 anos haviam se transformado em 81 e meu destino seria morrer sozinha, rodeada por livros e gatos. Meu estado de torpor ao revisitar o mundo dos solteiros foi tão grande que cheguei ao cúmulo de invejar a desenvoltura com que aqueles seres vagavam com seus copos na mão e sorriso (meio bocó, há de haver sinceridade) rasgando bochecha a bochecha. Uma inveja que durou cerca de dez segundos, até a constatação de que não dá para uma arara invejar uma manada de lobos. Claro, eu era a arara.

No instante em que visitei o zoológico mental, minha agonia se foi. Eu realmente estava fora de lugar, mas não por não ser atraente suficiente, desinteressante ou sebenta. Nada disso. Estava fora de lugar como uma arara que traça as mulheres dos vizinhos de ninho. Como um patissier que tenta se saciar com uma maria mole. Eu estava indo contra a minha natureza. E pouca coisa pode ser pior que isso.

A noite foi uma eca, mas aprendi uma lição básica e bem apaziguadora: não dá para achar um bom cd de jazz na prateleira de forró. Não dá para encontrar—ou ser encontrada—por alguém que tenha a ver com você se você mesma se desencontrar e se misturar à fumaça, aos bêbados e ao som ensurdecedor.

 

 

 



Escrito por Ailin Aleixo às 19h26

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