Promessa

Depois de tanto tempo deixar esse blog largado, prometo que o tratarei melhor. E também tratarei melhor as centenas de pessoas que me escrevem em busca de uma crônica nova. beijos, Ailin



Escrito por Ailin Aleixo às 12h58

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O canto pacífico

A parte do corpo masculino que mais me agrada anda meio desprezada. É um canto ao qual só quem ama tem acesso e apenas quem não tem medo de sua própria vulnerabilidade usa. Visível para qualquer um, mas que quase ninguém nota.

Sexo não é a entrega máxima entre duas pessoas - se fosse, prostituição seria amor. Intimidade não são dois corpos nus e cansados depois do sexo, não é compartir dívidas ou nomes na conta-corrente. Tampouco usar a mesma escova de dentes. Não é traçar planos a longo prazo porque eles, a qualquer momento, podem ser levados embora como árvores num vendaval (tão fortes na teoria, tão frágeis na prática); não é saber de cor as respostas do outro, deixar de usar pimentão porque ele não gosta, jamais tocar aquela música que traz más lembranças. Isso é vida a dois, que pode (infelizmente) ser vivida por semidesconhecidos. A maior intimidade que um casal pode conquistar não requer nudez, gemidos ou penumbra. Ela fica disponível, esperando ser requisitada, exatamente no lugar que mais me atrai na solidez corpórea de um homem.

Não me apaixonei muito na vida apesar de as possibilidades de paixão terem sido fartas. Mas foi só depois de terminados o ardor e o desespero que sempre vêm atrelados a esse sentimento difícil que compreendi o porquê de ter me perdido em outra pessoa em tão poucas ocasiões: só eles, esses poucos amores, me deram o que sempre precisei, perceberam que minha maior necessidade não tem vínculo algum com brilhantes elucubrações ou demonstrações de saber. Só eles notaram ser essencial deixar essa pequena área sempre à disposição - quando os momentos difíceis me alcançavam (ou os muito bons), era sempre no resguardo desse canto que eu repousava minha aparente força, chorava de alegria, abandonava os medos.

A maior entrega se faz quando me aninho mansamente no espaço macio entre o pescoço e o peito dele e apenas fico, sem necessidade de palavras. Intimidade é o momento no qual silencio a mente (e o mundo) e repouso a cabeça na parte mais fascinante e suave do corpo masculino: o ombro do homem que amo.



Escrito por Ailin Aleixo às 12h54

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Grisalhos e carecas

Não acredito em cantadas. Acho um horror assobios tarados ou frases feitas - coisas típicas de homens desprovidos de massa encefálica ou que pensam alto com o penencéfalo. Por isso sempre gostei de homens mais velhos. Eles, pelo menos, disfarçam melhor. (E isso já é um avanço incrível.) É inevitável me sentir constrangida diante da inaptidão dos novinhos. O pior não são os tímidos confessos ou os atrapalhados evidentes que não sabem onde colocar as sílabas e muito menos as mãos (esses merecem as benesses do olhar bondoso por terem verdadeiramente tentado o seu melhor); os que mais me incomodam são os que pensam dominar arte e técnicas de deixar mulheres trôpegas de desejo, mas tudo o que conseguem são interlocutoras abismadas diante de tanta tagarelice inútil. Confesso que sofro de uma incorrigível patologia, a TPT: timidez por terceiros. Morro de vergonha pelo papelão dos outros. Por isso prefiro os coroas.

Coroas aprenderam a duras penas, com a prática, decepções e erros, a seduzir uma mulher. Antes disso, sabem o quanto a sedução é essencial. Sem ela a vida fica prática demais, direta demais, misteriosa de menos. Homens nunca deixam de sofrer de ereções involuntárias perante um quadril vasto e rebolante, mas os coroas sabem controlar a salivação para não causarem danos psicológicos irreversíveis a suas parceiras - eles já perceberam o quanto um olhar lascivo lançado para o lado deixa sua garota se sentindo mais pra baixo que estação de metrô.

Nunca liguei para bíceps torneados e fôlego de maratonista e não suporto a vaidade excessiva de machos que tenham nécessaire maiores que a minha. Troco facilmente uma barriga tanquinho pela habilidade raramente adquirida aos 20, conquistada lá pelos 30, e aprimorada depois dos 40, intitulada 'cumplicidade'. O acúmulo dos anos de vida em um homem pode aumentar a quantidade de células adiposas na barriga, mas também aumenta a quantidade de informações necessárias para entender a alma feminina (pelo menos o mínimo necessário) e a paciência para lidar com suas idiossincrasias. E essa habilidade resulta em algo quase mágico: a vontade de estar com uma mulher por ter afinidades reais com ela, sonhos e gostos em comum, e não por ela ser um prêmio adormecido ao seu lado na cama, uma bunda marmórea a qual ele pode se gabar de ter apalpado. Coroas já tiveram, pelo menos, mais tempo de deixarem de ser fúteis. Apesar de alguns não tomarem jeito nem assim...

Mas, acima de tudo, gosto de homens mais velhos por saberem usar a língua. Eles sacaram que ela é a responsável por elogios derretedores de gelo, conversas inesquecíveis, frases memoráveis e por transformar noites tediosas em momentos cheios de lembranças gemidas e úmidas.

Sabe qual a vantagem dos garotos? É que um dia eles serão quarentões e terão aquele charmoso ar grisalho de quem já não precisa provar (quase) nada para o mundo.



Escrito por Ailin Aleixo às 12h51

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